Sobe
e desce
Encare sem medo os aclives e os declives do percurso;
eles vão melhorar a sua corrida de montão
Correr
na subida soa como um martírio e é difícil
imaginar que, apesar de todo o cansaço que causa
e do tremendo esforço a que o corpo é
submetido, ela pode fazer maravilhas por você
e pela sua evolução no esporte. Treinar
nos aclives fortalece a musculatura das pernas, aumenta
a economia da corrida, melhora o condicionamento aeróbio,
aprimora a técnica e até faz com que o
corredor ganhe velocidade. Ou seja: o deixa mais forte,
rápido e saudável.
Se
você é daqueles que continuam torcendo
o nariz para esse tipo de treino, aí vão
algumas provas do quanto ele pode fazer pelo seu corpo.
Um
estudo realizado pelo Instituto Karolinska, na Suécia,
constatou que maratonistas que haviam treinado por 12
semanas em subidas, duas vezes a cada semana, tiveram
uma melhora de 3% na economia de corrida (menor gasto
energético para manter o movimento da corrida).
Pode parecer pouco, mas isso resultou em 2 min a menos
nas provas de 16k e 6 min a menos em uma maratona. E
isso não é nada desprezível. Outra
pesquisa descobriu que atletas que treinam subida têm,
nos quadríceps, muito mais enzimas que permitem
aos músculos funcionar em intensidades elevadas
sem ficar fatigado que aqueles que só correm
em terrenos planos.
Os
aclives são uma maneira de fazer o corpo trabalhar
mais. "Você coloca mais intensidade no exercício,
sem necessariamente aumentar a velocidade e, como trabalha
com um V02 mais alto, a capacidade de manter a velocidade
se aprimora", afirma José Kawazoe Lazzoli,
especialista em medicina do esporte e presidente da
Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, a SBME.
Fabio Avelar, diretor-técnico da Leg Assessoria
Esportiva, acrescenta que a subida exige mais força
e resistência. "O atleta adquire mais força
nos membros inferiores e consegue realizar um recrutamento
mais intenso e amplo dos grupos musculares que são
utilizados na corrida", diz ele.
Muitos
corredores não se dão conta de que o treino
na subida pode ser tão benéfico para
a musculatura das pernas quanto o feito na musculação,
com a vantagem de o exercício ser feito enquanto
se corre e não em uma situação
artificial como uma sala de aula. Muitos especialistas
acreditam que as sessões no aclive melhoram a
elasticidade de músculos, tendões e ligamentos,
fazendo com que o corpo consiga suportar uma intensidade
de trabalho mais alta com menos esforço e fadiga.
VENÇA
ESTE DESAFIO
Você está no meio da prova e eis que se
depara com uma montanha pela frente. Os especialistas
dizem que vencer uma subida íngreme não
diz respeito só ao físico, mas também
à cabeça. Você não deve deixá-la
te derrubar. Correr bem em um aclive é uma questão
de ritmo. Por isso, são necessários alguns
ajustes: um deles é encurtar a passada. Não
dá para manter a mesma que no plano. O outro,
é acelerar gradualmente, à medida que
se alcança o fim dela.
Para
não quebrar na subida, Aulus Sellmer, diretor-técnico
da 4any1, recomenda que o corredor tenha um lastro energético
para não ultrapassar o seu limiar de esforço
e, assim, ficar comprometido por uma fadiga muscular.
"É preciso ter uma reserva energética
e isso se dá com o amadurecimento do treinamento",
esclarece. O técnico acrescenta que o corredor
alcançará esse limiar maior de esforço
com treinos variados: longão, ritmo e intervalados
de intensidade. A subida é mais um nessa longa
lista de treinos.
Os
aclives podem desenvolver tanto a potência anaeróbica
como a anaeróbia. Subidas curtas, que exigem
uma energia explosiva obtida por meio da queima de carboidrato,
trazem ganho de potência anaeróbia. "Mas
não indico mais de 1 min de corrida, para evitar
acúmulo de ácido láctico nos músculos",
indica Avelar. Já as médias ou longas
trabalham a evolução da potência
aeróbia (em que o oxigênio é o combustível).
LADEIRA
ABAIXO
Boa parte dos corredores abre um sorriso quando se fala
em descida. Afinal, como é mais fácil,
vira a chance de recuperar o tempo perdido na subida.
"Como os ângulos são
diferentes, há uma participação
de intensidade diferente entre as subidas e descidas.
Nessas últimas, o gasto energético é
bem menor, por tanto, com a postura adequada, os declives
podem ser encarados como uma recuperação
do esforço", explica o médico José
Kawazoe Lazzoli.
Mas
a corrida nos declives requer muito mais atenção.
Ela resulta em um estresse para o corpo muito maior
que na subida e que até mesmo correr no plano.
Não é pouco freqüente os atletas
inclinarem o corpo para trás na ladeira, uma
espécie de tentativa de
lutar contra a gravidade, e frearem com os joelhos.
O
problema é que isso coloca uma tremenda carga
nos joelhos e músculos da coxa. Se você
notar, essa postura gera aquele som característico
de quem corre de qualquer jeito na descida: pá,
pá, pá.... Não é difícil
perceber que certamente esse não é o jeito
mais eficiente de correr. "O problema dos declives
é que o corredor costuma soltar o corpo, atitude
que favorece o aparecimento de lesões. Afinal,
o impacto fica aumentado devido à força
de atração da gravidade e à velocidade",
explica o personal trainer Miguel Sarkis.
Com
essa somatória de fatores, os membros inferiores
e ossos sofrem com cerca de quatro vezes mais peso.
Por exemplo: se um corredor que pesa 80 kg descer desembestado,
sofrerá um impacto de aproximadamente 320 kg
a cada toque dos pés.
Independentemente
do treino, o trabalho nos planos inclinados exige mais
força muscular e gera mais impacto, e é
aí que podem surgir os problemas de lesões
e fadiga.
"Quanto
maior a inclinação, maior a sobrecarga
nos quadríceps, quando subimos, e nos joelhos,
quando descemos", observa Sandra Aparecida Atayde,
professora de fisioterapia, especialista em fisiologia
do exercício e doutoranda em ciências médicas
pela Faculdade de Medicina da Universidade de São
Paulo. Para evitar lesões nas articulações,
Sandra aconselha: evitar o cansaço em um aclive
e não exagerar na velocidade nos declives.
Fernando Fischer / texto: Sara Puerta
sportlife.terra.com.br
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