Segundo colocado no Mundial de MotoGP em 2014, Valentino Rossi mostra que é possível atenuar os efeitos da idade e prolongar o auge de um atleta no esporte a motor. Além disso, Jenson Button e Tom Kristensen garantem que o aspecto físico não prejudica. Mas é preciso tomar cuidado especialmente com a motivação, como destaca o australiano Mark Webber, que deixou a F1 aos 37 anos no fim de 2013.

Valentino Rossi pode até ter guardado a camiseta comemorativa, mas segue fazendo jus ao mote: ‘Gallina vecchia fa buon brodo’. Perto de completar 36 anos no dia 16 de fevereiro, o piloto italiano mostra que encontrou a fórmula da juventude e, como alguns de seus pares, prova um dia após o outro que a idade não é um fator decisivo no esporte a motor.

Indo para seu 19º ano no Mundial de Motovelocidade, Rossi conseguiu não só minimizar os efeitos da idade, mas encontrou uma maneira de se manter constantemente motivado e acompanhar a evolução trazida pelos pilotos mais jovens.

Na luta pelo décimo título, Valentino encontrou nos pilotos mais novos sua própria fonte da juventude. Por meio da Academia de Pilotos VR46, o italiano passa o dia treinando com jovens conterrâneos, pilotos como Romano Fenati, Niccolò Antonelli, Franco Morbidelli e Luca Marini, seu meio-irmão.

Na temporada passada, após conquistar a pole-position para o GP de Comunidade Valenciana, Valentino reconheceu que o trabalho com seus pupilos, além de divertido, também o ajuda.

“Antes de mais nada, é muito divertido trabalhar com eles”, ressalta o piloto da Yamaha. “Isso também me ajuda, porque trabalhar com jovens pilotos me mantém mais jovem. É muito, muito divertido.”

“Nós passamos muito tempo juntos em casa para treinar e, sinceramente, nós testamos algumas coisas neles antes de eu tentar. Nós vemos se eles resistem”, brincou. “Sinceramente, é muito bom também para mim”, completa.

Para a psicóloga Luciana Ângelo, presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (Abrapesp), a convivência com jovens é benéfica para qualquer profissional, assim como a presença de rival precoce, como Marc Márquez.

“Por exemplo, um professor que sempre está em contato com estudantes mais jovens, se é realmente um professor motivado, aprende, vai atrás, busca estratégias e se mantém atualizado independente da idade”, diz Luciana em entrevista ao GRANDE PRÊMIO. “No caso do Valentino, o contato com os mais jovens recuperou aquela motivação intrínseca. É quase como um desafio indireto para ele mesmo.”

“Tem uma hora que o atleta vai ficando mais experiente e ele vai se acostumando a chegar em primeiro lugar, a estar entre os cinco primeiros, aquela coisa toda. E, de repente, aparece alguém diferente”, comentou. “Isso mobilizou o Valentino para ir atrás, porque aí você tira o atleta da zona de conforto. Isso acontece muito com atleta de alto rendimento. Quando começa a ser o primeiro do ranking repetidas vezes, ele se acomoda. É quase como se ele imaginasse que ninguém poderia bater as marcas dele. Então estar em contato com o novo, com o que vem, com o que aparece, com o que traz uma outra estratégia, isso é muito legal. É uma reciclagem inclusive para a própria profissão e carreira do atleta”, sublinha.

Mas seguir competindo não quer dizer continuar exatamente na mesma modalidade. Mark Webber, por exemplo, deixou a F1 no fim de 2013 e partiu para o Mundial de Endurance em busca de uma nova aventura. Perguntado pelo GP, o australiano de 38 anos contou que pensou que jamais perderia sua motivação, mas viu isso acontecer.

“Quando eu era jovem, nunca entendia quando as pessoas diziam ‘se ele conseguir manter sua motivação, vai ter uma boa carreira’ Quando eu era jovem, pensava ‘nunca vou perder minha motivação’. Mas isso acontece”, admite. “É como vocês, que fazem o mesmo trabalho por dez, 15 anos, e querem algo um pouco diferente. Foi o mesmo para mim.”

“No fim, você precisa de desafios diferentes, ambientes diferentes. Então mentalmente tem muita coisa que acontece na parte final da carreira. E a decisão de se aposentar da F1 não é fácil. Eu estava muito emocionado aqui no ano retrasado. Foi uma corrida emocional para mim. Eu estava relaxado, mas quando entrei no carro, comecei a pensar bem emocionado. Tive que abaixar a viseira e ter um momento comigo mesmo, pois você percebe o quanto fez para se colocar nessa posição. A corrida foi muito boa. Então a parte final da carreira na F1 sempre foi mais difícil mentalmente”, recorda Webber, se referindo a sua última corrida, em Interlagos.

No caso do esporte a motor, a idade também tem um impacto positivo, já que a experiência auxilia os pilotos na hora da tomada de decisão.

“O que a gente sabe dessas modalidades específicas é que quanto mais idade, mais treino, mais facilidade de lidar com as adversidades”, explica a psicóloga Luciana. “É benéfico nesse caso, nessa modalidade, ter mais idade, porque a tomada de decisão muitas vezes é mais rápida. Ele demora menos do que um cara novinho para poder decidir se ele vai fazer a curva, se ele vai pisar no freio ou no acelerador, se ele aperta o botão, muda a marcha... Isso não é específico só porque o atleta tem idade A ou B, mas sim pela característica da modalidade”, justifica..

Aos 41 anos e vindo de seu 17º Dakar, Jean Azevedo concorda com a psicóloga e acredita que em modalidades como o rali, a idade conta como um bônus.

“No rali, por ser uma prova de velocidade em um lugar desconhecido, isso é um a mais que o piloto tem”, fala Jean ao GP. “Porque se você arriscar demais em um rali, o que acontece com os mais jovens, a chance de você ter um acidente é muito grande. Então, o rali é uma modalidade em que isso te ajuda. Te preserva em algumas situações de risco”, observa.

A parte psicológica, aliás, também tem peso nessa exposição ao risco. “A tendência, vamos dizer mais natural, é que, quanto mais novo, menos você lida com o risco, menos noção, menos consciência você tem do risco que você corre”, indicou a presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte. “E quanto mais experiente, por você já ter passado por várias situações, você já saca que você tem um risco maior ou menor”.

O limite físico do esporte

Pilotos como Rossi, Webber e Azevedo comprovam que a idade não é um limite para a atuação no esporte a motor, mas nem por isso o tempo deixa de cobrar seu preço.

“O envelhecimento afeta todos os sistemas do corpo humano, é natural e faz parte do nosso ciclo de vida”, afirma Ricardo Munir Nahas, especialista em medicina do esporte e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, em entrevista ao GRANDE PRÊMIO. “De uma maneira geral, todas as qualidades físicas tornam-se menos eficientes na medida em que envelhecemos. O que melhora é a experiência. Esta é a razão pela qual esportes de longa duração tem vencedores mais idosos.”

“Eles aprendem a distribuir a energia de acordo com a exigência da prova, embora os mais jovens sejam naturalmente mais capacitados”, acrescenta.

Nove vezes vencedor das 24 Horas de Le Mans, Tom Kristensen, de 47 anos, vê a preparação física como uma coisa positiva no esporte a motor e avalia que ainda tem a mesma forma de quando tinha 30 anos — mas sente esse desgaste.

“Uma coisa boa de ser um piloto é que você sempre tem de trabalhar na preparação física, e isso se estendeu durante toda a minha carreira”, começa o dinamarquês ao ser perguntado pelo GP. “Eu diria que ainda estou com a mesma forma que estava aos 30 anos. Apenas demoro mais para recuperar a energia. Corro ou pedalo na mesma quantidade de tempo do quando tinha 30, mas dói e demora mais para recuperar a energia. É difícil. E agora você vê que todo mundo é muito magro, e isso faz uma diferença”, salienta.

Especialista em medicina do esporte, Ricardo Munir Nahas explica que o efeito da idade chega para todos, mas em esportes onde o preparo físico é menos exigido, fica a impressão de uma durabilidade maior do competidor.

“Os efeitos sentidos são os mesmos para todos, independente do esporte. No entanto, alguns esportes exigem menos preparo físico do que outros, o que pode dar a falsa impressão de que pode-se ter longa vida na sua prática. No esporte a motor, a força, reflexos, coordenação e equilíbrio devem compatibilizar potência e idade”, defende.

“Os primeiros efeitos a serem sentidos são os que exigem maior participação do sistema neurológico: coordenação e equilíbrio. O truque para a longevidade é manter-se sempre ativo, com exercícios regulares, para poder praticar o esporte por muito tempo”, orienta. “Tudo muda com o envelhecimento, mas seus efeitos serão mais ou menos sentidos em proporção ao sedentarismo de cada um. Quanto mais sedentário, mais os efeitos do envelhecimento serão percebidos, principalmente na prática esportiva”, conclui.

A receita do envelhecimento saudável é simples e pode ser seguida por todos, atletas ou não.

“Existe um caminho para você retardar um pouquinho o envelhecimento. Você tem como melhorar o seu envelhecimento, mas uma coisa é certa: todo mundo vai envelhecer. Você tem apenas que envelhecer de forma saudável, com exercício físico, dieta, uma qualidade de vida boa. Tirar coisas que comprovadamente fazem mal, como cigarro, bebida... Essas coisas todas aceleram o envelhecimento”, encerra Flavio.

Cada vez mais jovens

A temporada 2014 da F1 foi a que teve a menor média de idade da história. Os 22 pilotos que alinharam no grid do GP da Austrália tinham uma média de 26 anos, 11 meses e 13 dias. São 16 anos a menos do que na corrida que teve a maior média da história: 42 anos, nove meses e 12 dias.

 

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